domingo, 1 de fevereiro de 2026
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Pesquisadores Paraenses Criam Sistema de IA para Monitorar Desenvolvimento de Crianças na Amazônia

Ferramenta desenvolvida pela UFRA utiliza Inteligência Artificial para detectar precocemente atrasos no crescimento infantil, com foco em populações vulneráveis

Um novo aliado tecnológico chega para fortalecer o cuidado com a primeira infância no Pará. Pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) desenvolveram o Sistema Inteligente para a Promoção do Desenvolvimento Infantil (SDIA), uma plataforma que utiliza inteligência artificial para identificar possíveis atrasos no desenvolvimento de crianças, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social na região amazônica.

A inovação representa um salto qualitativo na forma como o desenvolvimento infantil pode ser monitorado no estado, democratizando o acesso a avaliações que tradicionalmente dependem de consultas médicas periódicas, nem sempre acessíveis a todas as famílias.

Como Funciona o Sistema

O SDIA opera através de um questionário inteligente acessível por qualquer dispositivo conectado à internet. A ferramenta foi desenvolvida para emular o conhecimento contido na Caderneta da Criança, documento oficial do Sistema Único de Saúde (SUS) que acompanha o crescimento e desenvolvimento dos pequenos desde o nascimento.

Por meio de perguntas estruturadas, o software analisa diferentes aspectos do desenvolvimento infantil e classifica a criança em três categorias: desenvolvimento adequado, em alerta ou em atraso. Essa triagem inicial permite que profissionais de saúde, educação e assistência social identifiquem rapidamente casos que necessitam de atenção especial.

Marcus Braga, professor da UFRA e coordenador do projeto, explica a importância da ferramenta: “Com a ajuda desse artefato tecnológico, profissionais das redes de apoio terão a possibilidade de identificar crianças, ainda no período da primeira infância, que podem estar com algum tipo de atraso no desenvolvimento”.

Foco em Populações Vulneráveis

O projeto nasceu de uma constatação preocupante: muitas crianças, especialmente as de baixa renda ou que vivem em condições de vulnerabilidade, não são acompanhadas regularmente por profissionais de saúde. Sem esse monitoramento, possíveis atrasos no desenvolvimento passam despercebidos até que se tornem mais difíceis de tratar.

“Essas crianças nem sempre são identificadas, especialmente as que não têm a prática de ir ao médico para acompanhamento periódico, como as crianças de baixa renda e as que vivem em alguma condição de vulnerabilidade”, ressalta Braga.

O direito ao atendimento de crianças com atrasos no desenvolvimento está previsto no Artigo 208 da Constituição Federal. No entanto, para garantir esse direito, é fundamental primeiro identificar quais crianças necessitam de suporte especializado – exatamente onde o SDIA entra como solução.

Desenvolvimento e Conformidade Técnica

O sistema foi desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas em Computação Aplicada da UFRA, com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e execução pela Fundação Guamá. Todo o processo seguiu rigorosamente as diretrizes estabelecidas pelo Manual de Crescimento do Ministério da Saúde (2002) e pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI).

Essa conformidade com normativas nacionais garante que os resultados fornecidos pelo software sejam confiáveis e possam ser utilizados como base para encaminhamentos médicos e intervenções educacionais ou terapêuticas.

Primeiras Implementações e Capacitação

O projeto já iniciou sua fase de implementação prática. Em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), professores do Centro de Referência em Educação Infantil Orlando Bitar receberam capacitação para utilizar a plataforma no acompanhamento das crianças atendidas pela instituição.

A escolha de começar pelas escolas não é casual. Educadores mantêm contato diário com as crianças e estão em posição privilegiada para observar sinais de possíveis atrasos no desenvolvimento. Com o SDIA, esses profissionais ganham uma ferramenta objetiva para complementar suas observações cotidianas.

Características e Vantagens da Ferramenta

Braga destaca os pontos fortes do sistema: “Temos uma ferramenta robusta, fácil de usar, pois é intuitiva, e que pode dar o indicativo de avaliação da criança quanto ao desenvolvimento. Isso permite que os pais, professores e profissionais competentes tomem conhecimento de quem são estas crianças com atraso, e proporcionem o atendimento e estímulos necessários ao seu desenvolvimento”.

A interface intuitiva foi pensada justamente para que profissionais sem formação técnica em tecnologia possam utilizar o sistema sem dificuldades. Além disso, quando aplicado em larga escala, o SDIA permite mapear o desenvolvimento infantil em diferentes regiões, gerando dados valiosos para políticas públicas.

Planos de Expansão

Atualmente, o aplicativo está disponível gratuitamente para professores da rede pública. No entanto, a equipe do projeto já trabalha na expansão do sistema para outros públicos e contextos.

Os próximos passos incluem disponibilizar a ferramenta para unidades de saúde, permitindo que profissionais da atenção básica integrem o SDIA às consultas de puericultura. Também está prevista a extensão para centros de assistência social, ampliando ainda mais a rede de proteção à primeira infância.

Em um terceiro momento, os desenvolvedores pretendem disponibilizar uma versão do sistema diretamente para pais e responsáveis. Essa democratização total permitiria que qualquer família, mesmo sem acesso regular a serviços de saúde, pudesse avaliar periodicamente o desenvolvimento de seus filhos e buscar ajuda profissional quando necessário.

Reconhecimento ao Investimento Público

O coordenador do projeto faz questão de reconhecer o papel fundamental do financiamento público: “Sem o apoio da Fapespa essa pesquisa não poderia ter sido feita”. A declaração evidencia a importância do investimento em ciência e tecnologia voltadas para soluções de problemas sociais concretos.

O SDIA representa também a capacidade das universidades públicas paraenses de desenvolverem tecnologia de ponta aplicada às especificidades regionais. A Amazônia apresenta desafios únicos em termos de acesso a serviços públicos, e soluções como essa demonstram como a pesquisa local pode contribuir para superá-los.

Impacto Esperado

A implementação ampla do SDIA tem potencial para transformar significativamente o cenário do desenvolvimento infantil no Pará. A identificação precoce de atrasos permite intervenções no momento em que o cérebro infantil apresenta maior plasticidade, maximizando os resultados de eventuais terapias e estimulações.

Além do benefício individual para cada criança identificada, o sistema pode gerar dados epidemiológicos importantes sobre o desenvolvimento infantil na região, subsidiando a formulação de políticas públicas mais eficazes e direcionadas.

Para as famílias, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, o SDIA representa uma ponte de acesso a direitos constitucionais muitas vezes negligenciados por falta de instrumentos adequados de triagem e encaminhamento.

O projeto coloca o Pará em posição de destaque na aplicação de inteligência artificial para fins sociais, demonstrando que tecnologia de ponta e compromisso com a redução de desigualdades podem caminhar juntos. A iniciativa estabelece um modelo replicável para outras regiões do Brasil que enfrentam desafios semelhantes no monitoramento do desenvolvimento infantil.


Fonte: Agência Pará

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