Foto: Jay Yuno
Profissionais brasileiros de TI recebem média de R$ 358 mil anuais, superando México e Argentina, segundo relatório global da Deel
O Brasil consolidou-se como líder em remuneração de profissionais de tecnologia na América Latina, de acordo com o relatório The State of Global Compensation 2025, elaborado pela multinacional de recursos humanos Deel. O estudo analisou mais de 1 milhão de contratos em 150 países e revelou que especialistas brasileiros em áreas como inteligência artificial, desenvolvimento de software, computação em nuvem, análise de dados e cibersegurança recebem média salarial anual de US$ 67 mil, equivalente a aproximadamente R$ 358 mil por ano ou R$ 31,8 mil mensais.
O desempenho brasileiro supera significativamente outros países da região. O México ocupa a segunda posição com salário médio anual de US$ 48 mil (cerca de R$ 273 mil), seguido pela Argentina com US$ 42 mil (R$ 239 mil) e Colômbia com US$ 37 mil anuais. A liderança reflete a crescente demanda por profissionais qualificados e a competitividade do mercado tecnológico brasileiro no cenário latino-americano.
No ranking global, o Brasil posiciona-se em 11º lugar entre os 15 países que melhor representam a atuação da Deel em diferentes regiões, consolidando-se como player importante no mercado internacional de tecnologia da informação.
Áreas Mais Valorizadas
O relatório destaca que funções relacionadas à inteligência artificial, cibersegurança e marketing digital apresentam remunerações de 20% a 25% acima da média global. Esse diferencial reflete tanto a escassez de talentos especializados quanto a disputa acirrada entre empresas por profissionais qualificados nessas áreas estratégicas.
Profissionais técnicos, especialmente engenheiros de software e cientistas de dados, concentram os salários mais competitivos do setor tecnológico brasileiro. Por outro lado, áreas como vendas, marketing, produto e design ainda registram remunerações abaixo das médias praticadas nas grandes potências tecnológicas globais, evidenciando disparidades internas no mercado nacional.
Um aspecto relevante apontado pelo estudo é o crescimento expressivo do trabalho independente no setor tecnológico brasileiro. O relatório indica que 84% dos contratos em tecnologia no Brasil são de freelancers, denominados Independent Contractors (ICs). Em áreas de produto e design, esse índice alcança 79%, enquanto em vendas e marketing chega a 55%.
Esse modelo oferece às empresas vantagens como redução de custos operacionais e maior agilidade nas contratações. Entretanto, também gera preocupações relacionadas à precarização das relações de trabalho, uma vez que muitos profissionais atuam sem vínculo formal e sem direitos trabalhistas garantidos, criando riscos regulatórios e de sustentabilidade para o setor.
Desde 2021, o uso de participação acionária (equity) vem crescendo como estratégia de atração e retenção de talentos no setor tecnológico brasileiro. Empresas, especialmente startups e scale-ups, têm incluído ações ou stock options nos pacotes de compensação para tornar suas ofertas mais competitivas frente ao mercado internacional.
Essa prática alinha os interesses dos profissionais ao crescimento das empresas, criando incentivos de longo prazo que transcendem a remuneração mensal. O movimento reflete a maturidade crescente do ecossistema de inovação brasileiro e sua aproximação com padrões globais de remuneração e governança corporativa.
Apesar dos avanços salariais, o relatório evidencia desigualdade de gênero expressiva nas remunerações do setor tecnológico brasileiro. Mulheres continuam recebendo salários inferiores aos dos homens em posições equivalentes, demonstrando que a equidade salarial permanece como desafio central para o setor.
Os dados reforçam a necessidade de políticas corporativas mais efetivas para reduzir essas disparidades e promover ambiente mais inclusivo e justo no mercado de tecnologia nacional. A questão da diversidade e inclusão tornou-se cada vez mais relevante não apenas por questões éticas, mas também por sua relação comprovada com inovação e desempenho organizacional.
Contexto Global e Tendências
A pressão por especialistas em tecnologia tem elevado salários globalmente. Segundo estudo da consultoria Bain & Company, que entrevistou profissionais dos Estados Unidos, Alemanha, Índia, Reino Unido e Austrália, a remuneração média em funções ligadas à inteligência artificial cresce aproximadamente 11% ao ano desde 2019, chegando a 56% em cargos mais especializados.
O Brasil acompanha essa tendência global, mas enfrenta desafios específicos. Especialistas apontam que o mercado brasileiro possui grande oferta de profissionais para funções menos especializadas, o que comprime a média salarial geral. Simultaneamente, posições altamente qualificadas seguem disputadas globalmente, com remunerações muito superiores.
Desafios Estruturais
Analistas indicam que as lacunas salariais entre o Brasil e mercados mais maduros tendem a persistir enquanto não houver aumento significativo na produtividade setorial, incentivos robustos ao capital e escala de empresas capazes de pagar salários internacionalmente competitivos. A formalização das relações de trabalho e a redução da precarização também surgem como questões fundamentais para a sustentabilidade do crescimento do setor.
A qualificação profissional contínua apresenta-se como fator crítico. O ritmo acelerado de inovação tecnológica exige que profissionais invistam constantemente em atualização de habilidades, particularmente em áreas emergentes como inteligência artificial, aprendizado de máquina, computação quântica e blockchain.
O cenário apresenta perspectivas positivas apesar dos desafios. O investimento crescente em tecnologia no Brasil, a expansão do ecossistema de startups e a demanda internacional por talentos brasileiros criam oportunidades para que profissionais qualificados conquistem posições cada vez mais valorizadas no mercado.
A realização de eventos globais no Brasil e o reconhecimento internacional de soluções tecnológicas desenvolvidas no país contribuem para elevar o perfil dos profissionais brasileiros. Iniciativas de capacitação, tanto públicas quanto privadas, têm expandido o acesso à formação de qualidade em tecnologia.
A liderança do Brasil em salários de tecnologia na América Latina evidencia a importância estratégica do setor para a economia nacional e reforça o potencial do país como polo de inovação tecnológica na região. O desafio está em garantir que esse crescimento seja acompanhado de maior equidade, formalização e qualidade nas relações de trabalho, além de investimentos contínuos em educação e infraestrutura que sustentem o desenvolvimento de longo prazo do setor.
Fonte: Forbes Brasil



