Apenas 28% das empresas se consideram preparadas para uso estratégico da tecnologia; desafio está em estruturar formação adequada dos profissionais
O mercado brasileiro enfrenta um descompasso crescente entre investimentos em inteligência artificial e a capacidade real das equipes de utilizarem essas ferramentas de forma estratégica. Pesquisa recente da Amcham Brasil revela que apenas 28% das empresas no país se sentem realmente prontas para aplicar IA em suas operações, evidenciando uma lacuna crítica entre adoção tecnológica e preparo profissional.
O fenômeno tem impulsionado uma corrida por programas de letramento em IA — termo que designa a alfabetização nessa tecnologia e vai muito além do simples manuseio de ferramentas. Especialistas apontam que o conceito envolve compreender como a IA funciona, seus limites, riscos de segurança, implicações éticas e legais, além de saber integrá-la aos processos corporativos existentes.
Segundo análise da consultoria EY, o letramento em IA tornou-se imperativo para todas as organizações. “As habilidades em IA não são só para engenheiros, mas para todos”, destaca David Dias, sócio-líder de IA da EY na América Latina. A capacitação visa evitar os dois extremos problemáticos: a confiança cega na tecnologia e a rejeição automática por desconhecimento.
O cenário brasileiro revela ainda outro aspecto preocupante: enquanto as empresas investem recursos significativos na compra de ferramentas de IA — geralmente gerenciadas pela área de TI —, muitas negligenciam o investimento paralelo em capacitação das equipes. Dados da Pesquisa Panorama do Treinamento 2024-2025 mostram que 45% das empresas ainda não utilizam IA em suas ações de Treinamento e Desenvolvimento, expondo uma desconexão entre os orçamentos de tecnologia e recursos humanos.
O receio de ficar para trás diante das transformações do mercado tem levado muitos profissionais a buscarem capacitação por conta própria. Uma pesquisa da plataforma Slack revelou que 76% dos profissionais sentem urgência em aprimorar competências em IA, enquanto 97% das gerências relatam pressão para integrar a tecnologia às operações empresariais.
Esse ambiente de ansiedade, conhecido como FEBO (Fear of Becoming Obsolete, ou “medo de ficar obsoleto”), pode motivar iniciativas apressadas e pouco estratégicas, gerando resultados negativos e até prejuízos orçamentários, alertam especialistas.
Gustavo Torrente, da Alura + FIAP Para Empresas, ressalta que um dos pontos mais negligenciados pelas organizações é a governança de dados. “A IA é tão boa quanto os dados que a alimentam”, explica o especialista. “Não adianta ter a melhor tecnologia se os dados estão desorganizados, desatualizados, duplicados ou sem padrões de qualidade.”
Para estruturar programas efetivos de letramento, especialistas recomendam quatro pilares essenciais: aprofundamento em conceitos básicos de funcionamento da IA (machine learning, modelos de linguagem, algoritmos), estabelecimento de governança de dados robusta, implementação de práticas éticas e seguras, e desenvolvimento de capacidade crítica para avaliar resultados gerados pela tecnologia.
Da experimentação à maturidade
A evolução da adoção de IA nas empresas brasileiras tem seguido uma trajetória marcada por fases distintas. Segundo análise de mercado, 2023 foi um ano de experimentações e testes, com as organizações explorando o potencial da IA generativa e identificando casos de uso iniciais.
Agora, o desafio consiste em avançar da fase experimental para a implementação estratégica. Isso exige não apenas ferramentas adequadas, mas equipes capacitadas para compreender e questionar a tecnologia, transformando a IA em diferencial competitivo real e não apenas em modismo corporativo.
Relatórios do Fórum Econômico Mundial reforçam que a transformação baseada em IA exigirá requalificação profissional em larga escala. As projeções indicam que, até 2030, as habilidades demandadas pelo mercado sofrerão mudanças profundas, tornando o letramento em IA uma competência essencial para a empregabilidade futura.
O momento exige que empresas repensem suas estratégias de capacitação, integrando o desenvolvimento de competências em IA como parte fundamental da cultura organizacional — não como investimento isolado, mas como pilar estratégico para sustentabilidade dos negócios na era digital.
Fonte: Forbes Brasil



