O mercado de trabalho em tecnologia no Brasil vive ao mesmo tempo em que a demanda por profissionais qualificados cresce aceleradamente, as empresas enfrentam uma dificuldade crescente para encontrá-los. Um estudo recente conduzido pela Ford em parceria com o Datafolha, intitulado “Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências”, coloca números precisos sobre esse cenário preocupante: 98% das médias e grandes empresas brasileiras relatam obstáculos no processo de contratação de talentos em tecnologia.
A pesquisa, que consultou 250 líderes das áreas de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação, aponta que a insuficiência de conhecimento técnico é o problema mais frequente, afetando 72% das organizações. As especialidades com maior déficit de profissionais são Inteligência Artificial, que concentra 35% das queixas, e Engenharia de Software, com 31%. Em um cenário de rápida adoção de IA generativa e transformação digital nas empresas, esse gap representa um risco estratégico direto para a competitividade dos negócios.
O levantamento revela, contudo, que a falta de habilidades técnicas não é o único, nem, futuramente, o principal, obstáculo. Cerca de 37% das empresas eliminam candidatos que possuem o conhecimento técnico exigido, mas falham em competências comportamentais como inteligência emocional e pensamento crítico. O domínio do inglês, por sua vez, é tratado como requisito eliminatório por 78% das organizações ouvidas, barreira expressiva em um setor onde a colaboração com equipes globais e o consumo de documentações técnicas em outros idiomas são rotineiros.
Além do desafio de atrair talentos, as empresas precisam lidar com a retenção de uma nova geração de profissionais. A pesquisa indica que a Geração Z, que representa parcela crescente do mercado de trabalho tech, prioriza flexibilidade de horários e local de trabalho (49%) e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (39%). Esse perfil demanda uma reestruturação nas políticas de gestão de pessoas, algo que muitas organizações ainda não concluíram.
No campo legislativo, o Estatuto do Aprendiz (PL 6.461/2019), já aprovado pela Câmara dos Deputados e aguardando análise no Senado, emerge como um mecanismo para ampliar o ingresso de jovens de 14 a 24 anos no mercado formal. O texto estabelece cotas obrigatórias de 5% a 15% de aprendizes no quadro funcional das empresas, com multa de R$ 3.000 por vaga não preenchida. A proposta também exige que ao menos 20% da carga horária dos aprendizes seja dedicada à formação teórica.
A expectativa é que o estatuto contribua para reduzir o descompasso entre a demanda do setor de tecnologia e a formação disponível, mas o próprio estudo sugere que o maior desafio dos próximos dois anos será de natureza comportamental. Segundo as projeções dos líderes consultados, as soft skills devem superar as competências técnicas como principal critério de exclusão em processos seletivos, sendo citadas por 50% das empresas, ante 44% para aptidões técnicas.



