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O que a Leitura Profunda Ensina sobre Foco e Carreira na era Digital

Desconectar… dos smartphones, dos tablets, das redes sociais, das séries, dos podcasts, do excesso de informações e de estímulos, da nossa imagem. Talvez seja mais comum do que imaginamos não fazer o que sabemos ser certo.

Pesquisas reunidas por Maryanne Wolf em seu livro O cérebro no mundo digital mostram impactos negativos deste excesso de estímulos no cérebro. Indicam mudanças importantes em nossa forma de pensar, na nossa capacidade de concentração, de pensamento profundo e análise crítica. Com isso, atividades intelectuais que demandam mais tempo, esforço e silêncio interior estão se perdendo em nossa rotina: estamos deixando de ler com profundidade.

A autora escreve: “A leitura profunda sempre tem a ver com conexão: conectar aquilo que sabemos com aquilo que lemos, aquilo que lemos com aquilo que sentimos, aquilo que sentimos com aquilo que pensamos, e o modo como pensamos com o modo como vivemos nossas vidas num mundo conectado […]”.

A ausência da conexão entre o que conhecemos do mundo, o que sentimos e o modo como vivemos tem nos tornado — de certo modo — sem peso, sem gravidade, sem maturidade para lidar com problemas reais. Acabamos nos tornando repassadores de informações, que por sua vez foram repassadas por outros sem conhecer a fonte ou o assunto em profundidade. E o mais importante (ou perigoso), podemos acabar agindo com base em opiniões emprestadas.

Nossas carreiras precisam de profundidade. As organizações precisam de líderes com:

  • Capacidade de analisar criticamente os problemas.
  • Uma base de conhecimentos próprios (resultado de muito estudo e formação) que possa gerar soluções criativas, insights — e não sempre depender do que já foi feito por outros ou, hoje, pela IA.
  • Verdadeira empatia (capacidade de transportar-se à perspectiva dos outros). Para isso é necessário estudar pontos de vista diversos com seriedade e não reforçar opiniões próprias de modo passional.

Voltando agora ao “não fazer o que sabemos ser certo”. Acredito que a maior parte dos profissionais de tecnologia tem consciência do nível de distração e dos malefícios relacionados ao uso excessivo de redes sociais e afins. Sabemos que o certo é limitar o tempo de uso, mas, por algum motivo, continuamos sem limitar. Na verdade, algumas possíveis razões também são de nosso conhecimento. Uma delas, a dopamina.

No seu livro Nação dopamina, Anna Lembke explica que a dopamina é um dos neurotransmissores (um mensageiro químico do cérebro) mais importantes no processo de gratificação, e escreve: “A dopamina pode desempenhar uma função maior na motivação para se conseguir uma gratificação do que o prazer da própria gratificação. Querer mais do que gostar […]”.

Podemos entender que a simples busca por “alguma coisa” durante o nosso dia traz gratificações para o cérebro, com a promessa de pequenos momentos de prazer. Talvez por isso estejamos constantemente buscando nossos smartphones. E com a quantidade de estímulos dopaminérgicos a que estamos sujeitos, a luta pela desconexão se torna mais árdua, talvez uma possível justificativa para não fazer o que sabemos ser certo: nos desconectar.

É preciso quebrar esse hábito de buscar breves momentos de prazer que custam tempo precioso. A busca pelo próximo título de notícia, pelo resultado dos jogos, pela atualização dos pedidos, pela vida alheia, pelas novidades tecnológicas, pelos comentários em posts no LinkedIn, etc. E com a ajuda dos algoritmos das redes podemos acabar presos em uma câmara de eco junto com nossos semelhantes, sem criatividade para inovar, sem analisar criticamente os problemas que nos são apresentados, sem empatia e até com uma certa segurança de estar no caminho certo.

Cada um deve usar as suas próprias armas para encontrar a saída e não buscar por fórmulas prontas. Todos sofremos de um grave problema de falta de foco, de distração, que rouba nosso tempo e nos empurra para a superficialidade e falta de originalidade, e, de alguma forma, já temos esta consciência. Então talvez um primeiro passo seja dar o primeiro passo, mesmo que pequeno. Não somos escravos dos nossos neurotransmissores e nem de nossos sentimentos; não precisamos atender o tempo todo nossas vontades. Como animais racionais, podemos usar nossa razão para saber que nem tudo o que podemos fazer devemos fazer. Na prática, isso significa parar de usar o celular sem saber para quê, sem intencionalidade.

Aí vai uma sugestão simples. Conhecer a virtude da temperança, não superficialmente, em textos de poucas palavras, mas profundamente, ponderando sobre o que se lê e colocando em prática. O tempo de tela tenderá a diminuir e mais tempo sobrará para formação profissional e pessoal. A visão de mundo — do certo e do errado — ganhará em profundidade, o ter aos poucos perderá espaço para o ser, o eu se tornará menor que o nós. A rotina ganhará sentido porque estará conectada com o que de fato é importante e então teremos os pequenos e reais momentos de prazer que tanto buscamos.

Bruno Morhy
Bruno Morhyhttps://www.linkedin.com/in/bruno-morhy-6b97659/
Bruno Morhy é executivo de tecnologia com mais de 26 anos de experiência em gestão e governança de TI no setor financeiro. Ao longo de sua trajetória, liderou equipes e processos de transformação digital em ambientes de alta complexidade regulatória. Escreve sobre liderança, carreira e virtudes, com foco no desenvolvimento humano como fundamento da boa gestão.
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