Desconectar-se das redes sociais, dos smartphones e do excesso de estímulos. Talvez seja mais comum do que se imagina não fazer o que se sabe ser certo.
Pesquisas reunidas por Maryanne Wolf em seu livro O cérebro no mundo digital mostram impactos negativos desse excesso de estímulos no cérebro. Indicam mudanças importantes na forma de pensar, na capacidade de concentração, no pensamento profundo e na análise crítica. Com isso, atividades intelectuais que demandam mais tempo, esforço e silêncio interior estão se perdendo na rotina: deixa-se de ler com profundidade.
A autora escreve: ” A leitura profunda sempre tem a ver com conexão: conectar aquilo que sabemos com aquilo que lemos, aquilo que lemos com aquilo que sentimos, aquilo que sentimos com aquilo que pensamos, e o modo como pensamos com o modo como vivemos nossas vidas num mundo conectado […]”.
A ausência de conexão entre o que se conhece do mundo, o que se sente e o modo como se vive tem tornado as pessoas, de certo modo, sem peso, sem gravidade, sem maturidade para lidar com problemas reais. Tornam-se meras repassadoras de informações que, por sua vez, foram repassadas por outros sem que se conheça a fonte ou o assunto em profundidade. E, o que é mais importante (ou perigoso), corre-se o risco de agir com base em opiniões emprestadas.
As carreiras precisam de profundidade. As organizações precisam de líderes com:
- Capacidade de analisar criticamente os problemas;
- Base de conhecimentos próprios (resultado de muito estudo e formação), capaz de gerar soluções criativas e insights, sem depender sempre do que já foi feito por outros ou, hoje, pela IA;
- Verdadeira empatia (capacidade de transportar-se à perspectiva dos outros), o que exige estudar pontos de vista diversos com seriedade e não reforçar opiniões próprias de modo passional.
Voltando ao “não fazer o que se sabe ser certo”: a maior parte dos profissionais de tecnologia tem consciência do nível de distração e dos malefícios relacionados ao uso excessivo de redes sociais e afins. Sabe-se que o certo é limitar o tempo de uso, mas, por algum motivo, o limite não é imposto. Algumas possíveis razões, aliás, também são conhecidas. Uma delas é a dopamina.
No livro Nação dopamina, Anna Lembke explica que a dopamina é um dos neurotransmissores (mensageiros químicos do cérebro) mais importantes no processo de gratificação, e escreve: “A dopamina pode desempenhar uma função maior na motivação
para se conseguir uma gratificação do que o prazer da própria gratificação. Querer mais do
que gostar”.
Entende-se, assim, que a simples busca por “alguma coisa” ao longo do dia traz gratificações ao cérebro, com a promessa de pequenos momentos de prazer. Talvez por isso os smartphones sejam procurados com tanta frequência. Com a quantidade de estímulos dopaminérgicos a que se está sujeito, a luta pela desconexão se torna mais árdua, o que pode justificar, em parte, o não fazer o que se sabe ser certo: desconectar-se.
É preciso quebrar o hábito de buscar breves momentos de prazer que custam tempo precioso: o próximo título de notícia, o resultado dos jogos, a atualização dos pedidos, a vida alheia, as novidades tecnológicas, os comentários em posts no LinkedIn, etc. Com a ajuda dos algoritmos das redes, é possível acabar preso em uma câmara de eco junto com os semelhantes, sem criatividade para inovar, sem análise crítica dos problemas apresentados, sem empatia e até com certa segurança de estar no caminho certo.
Cada pessoa deve usar as próprias armas para encontrar a saída, sem buscar fórmulas prontas. A falta de foco e a distração são um problema grave e generalizado: roubam tempo, empurram para a superficialidade e a falta de originalidade e, de alguma forma, já são reconhecidas. Talvez, então, o primeiro passo seja simplesmente dá-lo, ainda que pequeno. Ninguém é escravo dos próprios neurotransmissores nem dos sentimentos; não é preciso atender a todas as vontades o tempo todo. Como animais racionais, os seres humanos podem usar a razão para saber que nem tudo o que se pode fazer se deve fazer. Na prática, isso significa parar de usar o celular sem saber para quê, sem intencionalidade.
Uma sugestão simples é conhecer a virtude da temperança, não superficialmente, em textos de poucas palavras, mas de forma profunda, ponderando sobre o que se lê e colocando em prática. O tempo de tela tenderá a diminuir, e sobrará mais tempo para a formação profissional e pessoal. A visão de mundo, do certo e do errado, ganhará profundidade; o ter aos poucos perderá espaço para o ser; o eu se tornará menor que o nós. A rotina ganhará sentido por estar conectada ao que de fato é importante, e então surgirão os pequenos e reais momentos de prazer tão buscados.



