O governo federal e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD) estão construindo uma infraestrutura própria de computação de alto desempenho dedicada à inteligência artificial aplicada aos serviços públicos brasileiros. O Núcleo de Inteligência Artificial Avançada, com aceleradores de GPU, deve entrar em operação até o final de 2026 e será responsável pelo treinamento e execução de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) voltados ao Estado.
A iniciativa integra o projeto INSPIRE, desenvolvido pelo CPQD em parceria com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), que recebeu R$ 390 milhões da Finep via Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Em quatro anos de execução previstos, o programa mobiliza 200 profissionais em sete frentes de trabalho e já acumula resultados concretos: 3,5 milhões de interações realizadas pelo assistente virtual Chat, que opera em 22 políticas públicas distintas.
O núcleo computacional será configurado para operar com 250 petaflops e, em precisão FP4, poderá atingir capacidade próxima a um quarto de exaflop. A estrutura permitirá não apenas o treinamento de modelos especializados na língua portuguesa e na cultura brasileira, como também a inferência local, eliminando a necessidade de enviar dados sensíveis a serviços de nuvem externos. A análise de ética e segurança dos modelos adotados no setor público também será conduzida dentro da própria infraestrutura.
A dimensão tecnológica do projeto vai além do hardware. O INSPIRE também atuou na qualificação de bases de dados públicas: foram processados 76,9 milhões de registros cadastrais e corrigidos automaticamente cerca de 30 milhões de endereços. Um motor inteligente de normalização de endereços foi desenvolvido, assim como análises de núcleo familiar com cruzamento de 13 bases de dados e um Observatório de Dados da Primeira Infância. Na frente de infraestrutura, 19,5 mil conjuntos do Catálogo Nacional de Dados passaram por monitoramento automatizado, reduzindo o tempo de análise de sete para uma hora.
O programa também formalizou acordos de cooperação entre MGI, CPQD, Serpro e Dataprev. As duas empresas estatais de tecnologia, mantidas fora do Programa Nacional de Desestatização pelo governo atual por serem consideradas ativos estratégicos, contribuirão com infraestrutura para implantação e evolução das soluções desenvolvidas. Juntas, Serpro e Dataprev detêm o maior acervo de dados sobre pessoas físicas e jurídicas do país, formando a espinha dorsal de dados para o ecossistema de IA governamental.
O INSPIRE está inserido no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e representa uma das apostas do Estado para reduzir a dependência de plataformas estrangeiras no desenvolvimento e na operação de sistemas de IA críticos para a administração pública.



